terça-feira, 18 de março de 2014

Oração do caboclo...

 Neste tempo, que todos apelidámos de crise, nada melhor que este poema para nos ensinar a pedir. Quem muito pede, talvez algo lhe seja dado...


Ói Deus,
Nóis tá sempre pedindo as coisas pro Sinhô.
Nóis pede dinhero,
Nóis pede trabaio
Nóis pede pra chovê
E se chove demais
Nóis pede pra pará
Mode a coiêta num afetá.

Nóis pede amô,
Nóis pede pra casá
Pede casa pra morá
Nóis pede saúde
Nóis pede proteção
Nóis pede paiz,
Nóis pede pra dislindá os nó
Quando as coisa cumprica
Mode a vida corrê mió.

Quano a coisa aperta nóis reza
Pedindo tudo que farta
É uma pedição sem fim
E quano as coisa dá certo,
Nóis vai na igreja mais perto
E no pé de argum santo
Que seja de devoção
Nóis deixa sempre uns merréis
E lá no cofre da frente
Nóis coloca mais uns tostão.

Mais hoje Meu Sinhô
Bateu uma coisa isquisita
E eu me puis a matutá
Nóis pede, pede e pede
Mais nóis nunca pregunta
Comé que o Sinhô tá
Se tá triste ou tá contente
Se percisa darguma coisa
Que a gente possa ajudá
E por esse esquecimentp
O sinhô tem que nos adiscurpá.

Ói Deus, nóis sempre pensa
Que o Sinhô num percisa de nada
Mas tarvez num seja assim
Tarvez o Sinhô percisa de mim
Sim, o Sinhô percisa, sim
Percisa da minha bondade
Percisa da minha alegria
Percisa da minha caridade
No trato c’os meus irmão.

Nóis semo seu espêio
Nóis semo a Sua Criação
Nóis num pode fazê feio
Nem ficá fazendo rodeio
Nem desapontá o Sinhô
Nem amargá o seu sonho
Que foi um sonho de amô
Quando essa terra todinha criô.

Ói Deus, eu prometo
Vo rezá de ôtro jeito
Vo pará com a pedição
E trocá milagre por tostão
Tarvez eu inté peça uma graça
Mas antes vo vê direitinho
O que é que andei fazendo de bão.
E se nada de bão eu encontrá
Muito vo me envergonhá
E ainda vo pedi perdão.

2 comentários:

Carlos Manuel Silva disse...

Não está nada mal esta oração, não senhor.
O caipira sabe pouco da Língua Portuguesa, mas raciocina como um doutor!

eduardo maria nunes disse...

Não deixe que a pobreza!
Em paisagem se transforme
Recebida com estranheza
Pelos ricos gente pobre!

Oração do caboclo...
Quem para os ricos trabalha
Por eles é espezinhado!

Sabem qual é o resultado!
Trabalha a terra vive na miséria
Funcionário publico odiado
O governo é uma abébia!

Nóis pede dinheiro!
Porque nóis dinheiro não tem
Já não há porcos no lameiro
Reformados sem vintém!

Por quem com o seu trabalho a gera!
Se a riqueza com justiça fosse distribuída
No mundo não haveria miséria
Havia sim, mais qualidade de vida!

É tão triste e desumano!
Tantas crianças no mundo com fome
Em países onde a riqueza pululando
A favor dos poderosos da sorte!

Será que Deus consente!
Que assim seja distribuída
Por quem na terra uma semente
Nunca semeou em toda a vida!

Enche a barrica o rico!
Para eles trabalha o a pobre
Como em Portugal antes visto
Descalço, quase nu, com fome!

Um abraço pata ti amigo Verde.
Eduardo.