sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A irreverência e a sabedoria!



Já fui jovem e em determinada altura pensava que sabia tudo, muito mais que aqueles “velhos professores ou velhos militares” que “pararam no tempo”. Mas, felizmente, essa “febre” passou-me depressa.
Quando fui para a Marinha, encontrei jovens provenientes de todo o país, onde  havia de tudo, desde os mais ingénuos aos muito vividos, dos pacatos aos traquinas, dos estudiosos aos grandes “calaceiros”. E, como em todas as escolas, quartéis ou outros estabelecimentos de ensino também existiam os “profissionais” das cábulas e dos copianços.
Tive diversos professores e instrutores cada um com a sua maneira de ser e de ensinar. Curiosamente, aquele que mais me marcou em termos militares foi o Sargento Bicho. Por sinal não era um bicho mas um excelente homem! De espírito vivo, inteligência rara e excelente cultura geral, tinha grande rapidez de raciocínio, óptima voz de comando e resposta rápida. ´
Nisto de reações rápidas, conta-se que numa universidade decorria uma aula com toda a normalidade quando um dos alunos sentado nas carteiras da frente “largou” um estrondoso e sonoro “traque ou peido” deixando a malta a rir. Lá no fundo, o Paulo que era irreverente e reativo, levantou-se, saltou para cima da carteira e com um gesto dramático, anunciou: “E soa a trombeta castelhana…”
O professor, homem magro e de estatura baixa, como que disparado por uma mola e em jeito de copianço do Paulo, pôs-se em pé em cima da cadeira, estendeu o braço e, com voz imperial, retorquiu: “Então ponha-se imediatamente lá fora para ver se os espanhóis estão a chegar…”
Sempre se confrontaram as partes, estando de um lado a jovialidade, a irrequietude e a irreverência dos alunos ou instruendos e, do outro, a sabedoria, a experiência e a tranquilidade dos que mandam, nesse processo complexo e muito importante que é a educação. Noutros tempos existia muito mais respeito de alunos para com professores do que agora, incomparavelmente, mas não quer dizer que não tentassem fazer-lhes alguma malandrice. E essa vontade de o pôr em causa mantem-se através dos tempos.
Numa universidade brasileira os alunos de uma turma resolveram divertir-se à custa de um professor. Arranjaram um burro, fecharam-no na sala onde seria dada a aula e esconderam-se perto da porta de entrada para gozarem com a previsível reação do mestre. Este chegou de pasta na mão, abriu a porta, entrou e fechou-a atrás de si. E os alunos ficaram na espectativa.
O tempo foi passando sem que o professor desse acordo de si, até que o sinal sonoro assinalou a hora de saída. Então viram a porta abrir-se e ele a sair descontraidamente de pasta na mão, como se nada de anormal se tivesse passado. A frustração foi geral, porque não deu oportunidade ao esperado gozanço.
O professor deu a aula seguinte com toda a naturalidade, sem fazer qualquer alusão ao ocorrido, como se não tivesse apercebido de nada mas, um pouco antes de acabar e quando já todos arrumavam as coisas para saírem, pediu aos alunos um momento de atenção e disse-lhes: “Amanhã haverá teste. A matéria é a que foi dada na aula anterior. Se tiverem dúvidas, perguntem ao vosso único colega que esteve cá”.
Ao outro dia houve teste e, claro, tiveram todos zero…
O povo, na sua sabedoria, resume tudo isto numa simples frase: “Ir buscar lã e sair tosqueado”.
Já Bernard Baruch dizia que, “em cada profissão é preciso uma dose de sabedoria para se perceber, a cada mudança, a extensão da própria ignorância”.
Ora, com burros, nem para o céu...

2 comentários:

Roaquim Rosa disse...

comentários para quê ?

Artur Sousa disse...

Belíssimo artigo! Camarada.
Não haverá uma foto por aí com o Sargento Bicho?
Cara que para mim, deve estar em limbo...
Abraço.